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A Little King’s Story’s Story: “Eu sou um maestro. E também um rei.”

Trilha sonora recomendada: https://www.youtube.com/watch?v=r30D3SW4OVw

Eu sou um maestro. E também um rei. Quero dizer, às vezes eu sou um maestro, às vezes um rei. Só quando visito Alpoko. É lá onde eu sou rei. E também maestro. Oficialmente, sou apenas rei. Mas geralmente sou as duas coisas ao mesmo tempo. “Como”, você pergunta? Fácil, eu respondo: todo rei é um maestro. Pelo menos os bons reis. Naturalmente, todo maestro também pode ser um rei. Pelo menos os bons maestros. Mas os reis têm muito mais dinheiro e mulheres que os maestros. Eu, por exemplo, vivo em um grande castelo e tenho sete esposas. Então você poderia dizer que eu estou mais para rei do que para maestro. Eu digo que não. Porque a função mais importante do rei é comandar de maneira competente a sua tropa e conquistar novos territórios para o reino, e isso o maestro também faz.

“De que maneira?”, você se pergunta. Ora, como, “de que maneira”? Repito: como eu já disse, todo rei é um maestro por excelência. Comandar um exército é como reger uma orquestra. E reger uma orquestra é como comandar um exército.

Isso eu aprendi depois que me tornei rei. A gente aprende várias coisas quando se é responsável pela vida de dezenas de pessoas.

Por exemplo: de luta em luta, a vida te ensina que o campo de batalha é um balé. Pois é: um balé. Tirando a matança – é claro – é tudo igual, com orquestra, maestro e dança coreografada.

Você sabia que o “Bolero” de Maurice Ravel foi composto inicialmente como um balé? Deve ser por isso que, toda vez que eu chego de viagem a Alpoko, encontro Ravel tocando seu Bolero no meu quintal. Acredito que é Deus ou o universo me pregando uma peça, mostrando um pouco do que está por vir. Nas primeiras vezes, apesar de sempre achar a cena bela, não lhe prestava muita atenção. Achava que um rei deveria se ocupar com coisas mais importantes. Mas o ponto aonde eu quero chegar é: era um sinal. Sempre foi um sinal. Porque, como eu disse, o campo de batalha é igual a um balé. Ravel já estava me dizendo, desde o primeiro momento: comande como um maestro, reja como um rei.

É claro que eu demorei a entender tudo isso. Leva-se tempo até que alguém aprenda como ser um maestro-rei. A não ser que você já seja um maestro ou um rei na vida real.

Ou seja, essas coisas você só aprende na prática.

Depois das primeiras derrotas, o seu corpo começa a entrar no ritmo. Tudo começa a funcionar organicamente como uma orquestra e o negócio do balé fica mais claro.

Quando menos esperar, você estará regendo-comandando como um maestro-rei.

Aí você é Ravel diante da orquestra. De costas para o público, que é a vida testemunhando a própria vida no campo de batalha, Ravel dá as ordens aos músicos-guerreiros. Sua coroa, dourada e brilhante, vibra sobre uma cabeça e um corpo que gesticulam de maneira precisa. Na vida real a mão treme ao segurar o nunchuk, mas em Alpoko você é rei. Rei-maestro. Você fica suado por baixo da casaca real, mas é preciso dar o compasso correto à música.

Ritmo é tudo.

Mas Ravel te ensina que a cooperação entre as partes é o mais importante.

Você foca na melodia. Ela se repete. É cíclica. “É o Bolero de Ravel”, você se lembra, afinal. É o ciclo da natureza, interpretado através das ações transformadoras dos homens no mundo? Não. É o ciclo da vida, que vai do nascimento à morte, se expressando através dos corpos que a guerra deixa para trás?

Não. É sobre outro ciclo que estamos falando aqui.

Lembre-se. Ouça. Acredite na memória muscular: você está ouvindo ao Bolero de Ravel.

Primeiro as madeiras. Sim, comece pela flauta. Depois, o clarinete. Fagote. Oboé d’amore. Vejo que você está entrando na atmosfera da música. Bom. Depois, os metais. O trompete. O saxofone. Trompa. Trombone. Agora, os instrumentos de corda. Violino. Viola. Violoncelo. Sem se esquecer, jamais, da percussão: bumbo, pratos, tam-tam.

A melodia-batalha se repete incessantemente. A cada repetição, um novo instrumento-combatente assume a dianteira. Madeiras, metais, cordas, percussão. Soldados, carpinteiros, caçadores, fazendeiros. Cada um tem a sua função específica: valorize-os. A cada ciclo, adicione um combatente-instrumento. A tática é sempre a mesma, mas a instrumentação varia ao longo do espetáculo-conflito. Você começa em um pianissimo, mas sabe que, ao fim de um longo crescendo, o gravissimo te espera.

Ok, agora você já sabe o que fazer. Mas o gravissimo é a garantia de vitória?

Não necessariamente.

É apenas o fim da primeira investida.

A primeira de muitas, sem dúvidas.

E como todo bom comandante, você precisa saber quando recuar.

Você recua.

Mas não perca o ritmo: não recue demais. É preciso seguir para a próxima investida. Dance no ritmo da música. Você é Ravel, mas também é a bailarina de um maestro-rei que está acima de você. Seria Deus? O universo? Ou o próprio espírito do campo de batalha, quem sabe?

Talvez você seja só você, Ravel-rei-maestro-bailarina-jogador(a) de Little King’s Story.

Sem divagações: a música não pode parar. Assim como a melodia cíclica do Bolero, o campo de batalha é composto por repetidas investidas, de ambos os lados.

Que o melhor rei-maestro vença: eu só quero ouvir a música tocar até o fim.

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