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Da importância do nome em Little King’s Story

Nome é um negócio sério. Algumas pessoas o recebem assim que nascem. Outras só são nomeadas tempos depois. Tem, ainda, as que não são sequer nomeados (mas estas, invariavelmente, acabam por criar seus próprios nomes). Porque nome é um negócio muito importante. É o nosso primeiro atributo genuinamente humano, ficcional, social. É ele que vai nos identificar perante os outros. É respeitoso chamar alguém pelo nome e desrespeitoso não chamar alguém pelo nome. Nós somos um nome e um nome somos nós. É através dele que impomos a nossa existência. Eu digo “pizza” e na sua cabeça se materializa a imagem de uma pizza; você olha para uma pizza e se lembra da palavra “pizza”.

O nome é uma coisa complicada.

Ele não vem com a vida, mas é imposto. Entretanto, e isso é importante notar, é uma imposição da própria vida: dela e para ela mesma. Algumas pessoas poderiam afirmar que nosso cérebro evoluiu de modo a interpretar sinais recolhidos através do sistema nervoso periférico, permitindo assim uma interação mais efetiva com o meio ao nosso redor e, consequentemente, uma maior probabilidade de sobrevivência em situações hostis. Em outras palavras, a evolução do cérebro humano estaria diretamente ligada à linguagem e vice-versa.

Outras diriam que o buraco é mais embaixo e que o nome, muito além do fator socio-psico-biológico, teria, também, poderes mágicos. É através dele que invocamos e somos invocados, convocamos e somos convocados. Na ritualística ocultista, os nomes das coisas são quase tão importantes quanto as próprias coisas. O nome tem poder. Deus, por exemplo, tem 72 nomes. É comum aos iniciandos em alguma ordem ocultista ou recém convertidos à uma nova religião receberem novos nomes, pois eles representam o começo de uma nova vida para o indivíduo. Nomear é, em suma, um rito de passagem.

Nome é mesmo um negócio sério.

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Dadinho é o caralho!

As pessoas não têm honra: seus nomes é que têm. Honramos nosso nome, não nós mesmos. Mas, dependendo da perspectiva, nós somos nosso nome, então dá no mesmo. Para os romanos antigos, honrar o nome era questão de vida ou morte. Ainda se luta, hoje, às vezes, mais por um nome do que por uma vida.

Mas a verdade é que nome tem vida própria e autônoma.

Tome a seguinte manchete hipotética: “Morre Silvio Santos, ícone da televisão brasileira, aos 99 anos”.

Você leria e ficaria triste, mas não seria a pessoa morta que estaria ali diante de você. Seria apenas o nome, que tem vida própria e, naturalmente, também morre. Às vezes o nome se vai junto dos corpos físicos que morrem, mas quase sempre não: normalmente sobrevive além da morte do próprio objeto ao qual se ligava. É ele, o nome, que dá a notícia e assina o testamento do falecido ex-companheiro. O que se segue após é a usurpação total da identidade, um domínio completo do nome sobre a não-mais-existência da vida. É ele que receberá as homenagens, celebrações, dedicatórias em títulos de músicas e por aí vai.

O nome também é fugidio e se infiltra nas coisas, até onde não é chamado. Vale dizer: sobretudo onde não é chamado. Se você chama algo de “coisa sem nome” o nome surge, transforma as iniciais em maiúsculas e cria um novo nome: “Olá, eu sou a Coisa Sem Nome, boa tarde!”, mesmo que você não o queira. Principalmente caso você não o queira. Porque o nome também faz juízo de valor e acha que tudo que é importante precisa ter um nome, já que, para ele, as coisas que têm nome são mais legais que aquelas que não têm. E o nome tem tendência a achar que tudo é importante. Isso é biológica e evolutivamente compreensível: é assim que eles perpetuam a espécie.

Mas, mais importante, o nome é um agente da intimidade: nomear é um dos jeitos mais íntimos de se conhecer algo.

Ao nomearmos, definimos o que esse algo é:

Oi, eu sou o Patrick”;

Mas, negativamente, ele também pode definir aquilo que algo não é:

Oi, eu não sou o Patrick. Agora Sou Doit, rei de Alpoko”.

Ou seja, nomear pode fazer de algo o que ele é, mas também pode fazer de algo o que eu quiser.

No fundo, o que o nome faz é transformar o estranho em conhecido e o desconhecido em familiar. É assim que nasce a empatia e, consequentemente, a intimidade. É por isso que namorados dão nomes carinhosos (e secretos) uns aos outros. Amor, empatia, intimidade, palavras: nomes. Amamos aquilo que sabemos o nome e damos nome àquilo que amamos. É por isso que várias pessoas têm concepções diferentes para o que significa a palavra “amor”, já que várias pessoas amam de maneiras diferentes.

Nome é, definitivamente, um negócio sério. Ele ama, cuida, mima, mas também odeia, segrega, oprime, mata. O nome redime e castiga.

Dizem que “Romeu e Julieta” é um drama sobre um amor impossível. Eu discordo. Mesmo que a afirmação não esteja totalmente errada, a verdade é que está muito mais para uma reflexão sobre o nome, o nomear e o impacto que isso tem na vida das pessoas, mesmo que isso signifique, em última instância, afirmar que se trata de um amor impossível. Porque Romeu e Julieta não podem levar o seu amor adiante, acima de tudo, devido à incompatibilidade de seus nomes.

Ou seja: o nome é uma faca de dois gumes.

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Romeu e Julieta em pintura de Frank Dicksee.

Quando os apaixonados se reencontram depois do primeiro encontro, Julieta diz:

— Ó Romeu, Romeu! Por que és Romeu? Renega teu pai e recusa teu nome; ou, se não quiseres, jura-me somente que me amas e não mais serei uma Capuleto. Somente teu nome é meu inimigo. Tu és tu mesmo, sejas ou não um Montecchio. Que é um Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem outra parte qualquer pertencente a um homem. Oh! sê outro nome! Que há em um nome? O que chamamos de rosa, com outro nome, exalaria o mesmo perfume tão agradável; e assim, Romeu, se não se chamasse Romeu, conservaria essa cara perfeição que possui sem o título. Romeu, despoja-te de teu nome e, em troca de teu nome, que não faz parte de ti, toma-me toda inteira!

Ao que Romeu responde:

— Tomo-te a palavra. Chama-me somente “amor” e serei de novo batizado. Daqui para diante, jamais serei Romeu… Meu nome, santa adorada, é odioso para mim mesmo, porque é teu inimigo; e se o tivesse escrito, teria despedaçado a palavra.

Esse dilema imposto pelo nome é o ponto de partida e o motor que desenvolve a narrativa ao longo de toda a peça. Montecchio não se mete com Capuleto e Capuleto não se mete com Montecchio. Mas ambos se amam; o que fazer, então? Simples e trágico: assim são os nomes.

Nome é (e eu espero já ter conseguido deixar isso claro à essa altura) um negócio sério…

As pessoas gostam de comparar Little King’s Story a Pikmin. A verdade é que são jogos completamente diferentes entre si. Pikmin se trata de te colocar no controle de uma multidão de criaturinhas pequenininhas e indigentes que te seguem para todo lado e que morrem à toa. Little King’s Story, por sua vez, se trata de te colocar no controle de uma multidão de súditos com vida própria, uma personalidade, uma voz, uma família e, acima de tudo, um nome — ênfase no nome! —, que te seguem para todo lado e que morrem à toa.

Eu adoro Pikmin, mas eu não preciso dizer que Little King’s Story é um jogo muito mais dramático e cativante.

E tudo por causa do nome. É ele que muda o quadro de figura, que aprofunda o laço entre jogo e jogador(a), que faz a vida valer a pena, que transforma um conjunto de bits e pixels em seres dotados, mesmo que artificialmente, de vitalidade. Amamos aquilo que sabemos o nome e nomeamos aquilo que amamos: é este o turning point, ou seja, a mudança drástica entre as duas experiências de jogo (LKS e Pikmin).

Viver como um rei em Alpoko ensina duas valiosas lições: primeiro, que não tem muita diferença entre ser um rei e ser um maestro e, segundo, que cada nome tem uma história, que cada história remete à uma vida e que toda vida tem seu valor. É por isso que Little King’s Story me envolve mais que Pikmin.

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Aquele ali no canto é o Caden, do lado dele tá o Aidan e, escondida ali atrás, tá a Lunasa, e…

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